sábado, 16 de julho de 2011

O Mar

Certo dia ela me disse que não queria mais me acompanhar. Não entristeci, foi como quando a tinta acaba e o pincel solitário resolve concluir o quadro, pois já não tem motivos para pintar.
Porém a pergunta que não se calou foi a seguinte: Quem se cansa de pintar? Olhei a imensidão do mar a minha frente e descobri a resposta: quem se cansa de pintar começa esculpir. Quando as mãos não conseguem mais ferir a pedra, de tão fracas, elas começam a tocar instrumentos, quando ninguém mais ouve sua melodia elas param e contemplam o mar que existe dentro de nós. Esse mar tão grande que se mistura com o céu no horizonte, tornando-se um, transformando-se num mistério. Quem se esconde atrás da sua própria sombra não desvenda o mistério, não pinta, não esculpi e nem toca os ouvidos alheios.
Peguei os remos do meu barco e segui em busca de uma nova musa que me inspirasse uma nova pintura...  

Mendigo

Tudo o que me restou foi o atestado de uma mente sã e corpo sadio. Talvez não, considerando todas essas porcarias que como e todos os tóxicos que ando ingerindo conscientemente... A impressão que tenho é que até isso eles querem tirar de mim! Pouco me importa se pra eles serei mais um indigente...
Como seria se todos tivessem espelhos em suas casas? Em algumas casas existem 3 ou até mais espelhos, que são conectados entre si por cabos de energia e se refletem simultaneamente; não é de hoje que isso acontece, e fico assustado, pois eles são todos iguais e não tem olhos nem ouvidos para entender o que são realmente, não enxergam o tamanho do equívoco que estão causando. Quando fecho os olhos vejo muito mais e consigo me ouvir verdadeiramente, ouço meu coração e enxergo minha alma, nada mais existe ao redor e sou como se fosse nada. Somos todos assim: não somos nada.
Transformo-me num mendigo sem posses materiais apenas pensamentos que não serão ouvidos nem reproduzidos por ninguém. Não tenho casa, nem roupas, nem espelhos. Tenho mais que isso: tenho um atestado de mente sã e corpo duvidosamente sadio, pois me vejo todos os dias procurando no lixo algo que me de vida.
Minha propriedade maior é meu corpo que se alimenta de restos dos que tem espelhos, casas e sede de ganância (que se alimenta de poesia, arte e magia), mas não são nada. Suas vidas são descartáveis, afinal seus espelhos, suas casas, e todo o fruto da ganância, um dia entrarão em ruína, partir-se-ão, tornar-se-ão obsoletos. Meu corpo é eterno, assim como meu atestado. Posso sempre que quiser fugir e me refazer sem nenhum problema, pois o mundo é minha casa, o lixo minha comida e os animais meus amigos, e esses nunca se perderão, sempre existirão.