domingo, 4 de dezembro de 2011

Ser Humano

certa vez perguntei a uma criança
o que ela queria ser quando crescer:
quero ser Humano.
a liberdade tolheu-me os sentidos
a hipocrisia poluiu meu coração
lembrei-me daquelas tardes de domingo
o sol brilhava, o vento soprava
as pipas no ar
e a noite esconde-esconde
toda a turma na rua
segunda era escola
terça também
nada era maçante,
o chá mate era doce e revigorante
não sabia nada do mundo
apenas era eu e era assim
era Humano, nunca quis ser
mas depois descobri
são com vinte e tantos paus
que se faz uma canoa
alguns usam quinze
outros trinta e tantos
a liberdade tolheu-me os sentidos
a hipocrisia poluiu meu
gostaria de poder voltar e ser Humano denovo...

Partida

quando você se foi
ficou tudo azul
como num blues

eu segui por novas estradas,
novas quebradas, outros sorrisos
o sol ainda brilha nos ladrilhos
daquela rua que outrora pisamos

o violão chora sua partida
e eu sigo na estrada da vida

o perfume daquelas flores ecoa na memória
a foto desse dia guardei numa estante
e a doei, como esmola
aos pobres de espirito,

meu violão ainda chora
e soa como grito de solidão.

sábado, 19 de novembro de 2011

A flor que encontrei no caminho

ói lá longe, quem vem vindo?
quem é esse, que chega rindo?
quem é aquela, que está partindo?

nem só de flores vive a primavera
se olhar bem, verá os espinhos nela.
mas quantas pedras há nesse caminho,
até que possamos nos encontrar?

você procura uma flor que está tão longe
e eu a tenho em minhas mãos
quando saí te encontrei perdida
e assim lhe mostrei a direção

com palavras e versos
sorrisos e rimas
entre as tramas do destino
vemos pedras no caminho

de onde vens?
e o que tens no coração?
é tão fria a tua mão,
que meu calor não chega pra esquentar.

você procura uma flor que está tão longe
e eu a tenho em minhas mãos
quando saímos por aí, na vida
muitas vezes não vivemos até encontrar

tenho a flor em minhas mãos,
assim saí a te procurar
quando em prantos te encontrei
e a minha flor enfim pode te consolar.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Programa do Faustão

nas garagens da vida, ainda que anônimo,
eu existo e persisto até que o fim seja inevitável.
nestes dias de incerteza,
Me consola saber que ele sempre vem.

nas alcovas sujas batem corações humanos, porém cruéis,
porque o homem é o único ser que faz diferença dos seus semelhantes.
Vejo as horas escorrendo pelos bueiros,
os dias indo guela abaixo nas bocas de lobo.
e nada muda, não há nada de novo no front.

somos sementes que não brotaram,
mas fazemos um futuro de faz de conta,
eu te ensino e você finge que aprende,
como nossos pais, nossos irmãos e amigos.

tão natural que já virou comédia no programa do Faustão.

sábado, 17 de setembro de 2011

Desanuviar

Hoje eu quero sair, desanuviar,
contar as estrelas,
ser piegas e rir de mim mesmo,
encontrar pessoas que me façam rir,
fazer serenatas de madrugada e acordar os vizinhos,

Quero ir a pé pelas ruas, me libertar,
pisar o asfalto que tanto me sufoca,
tocar violão nas praças,
correr na chuva,
tomar um banho quente,
beijar a garota mais doce que conheço,
e, depois de tudo isso, dormir como uma criança,
e sonhar com os anjos.

sábado, 13 de agosto de 2011

Conversas

Conversas são feitas de vírgulas e exclamações, pontos e dúvidas, é o caminho que se constrói de uma mente para outra, são os sentimentos se encontrando, como as águas de um rio encontram as do mar, como um pássaro que migra no inverno, para fugir do frio e para não se perder dos outros entes queridos. A conversa fortalece a ideia e esta nunca morre, mudos, cegos, paralíticos, analfabetos, todos conversam, todos sentem.
O vento trás de longe os rumores que não conhecemos, outras culturas, outras línguas, barreiras que se quebram facilmente ao leve toque do som das palavras, num sussurro, num grito, num gemido.
Imagens que se formam através das ondas sonoras que se propagam eternamente pelo espaço, belas letras escritas num livro, num muro, num papel, num bilhete.
Das palavras que nunca foram ditas, inventamos novas palavras que se fortalecem a cada dia, sendo infinitos vocábulos e sempre novos sentimentos, derivados dos antigos.
Novos sempre estamos quando sonhamos, quando conversamos, quando cantamos, que se os pássaros tem esse dom temos nós também um parecido, porém este tem o poder da construção e da destruição do mundo ao nosso redor, o amor se propaga pelo som da nossa voz, a guerra se rompe ao brado de um general qualquer, e assim vivemos num circulo vicioso pela eternidade afora.

sábado, 16 de julho de 2011

O Mar

Certo dia ela me disse que não queria mais me acompanhar. Não entristeci, foi como quando a tinta acaba e o pincel solitário resolve concluir o quadro, pois já não tem motivos para pintar.
Porém a pergunta que não se calou foi a seguinte: Quem se cansa de pintar? Olhei a imensidão do mar a minha frente e descobri a resposta: quem se cansa de pintar começa esculpir. Quando as mãos não conseguem mais ferir a pedra, de tão fracas, elas começam a tocar instrumentos, quando ninguém mais ouve sua melodia elas param e contemplam o mar que existe dentro de nós. Esse mar tão grande que se mistura com o céu no horizonte, tornando-se um, transformando-se num mistério. Quem se esconde atrás da sua própria sombra não desvenda o mistério, não pinta, não esculpi e nem toca os ouvidos alheios.
Peguei os remos do meu barco e segui em busca de uma nova musa que me inspirasse uma nova pintura...  

Mendigo

Tudo o que me restou foi o atestado de uma mente sã e corpo sadio. Talvez não, considerando todas essas porcarias que como e todos os tóxicos que ando ingerindo conscientemente... A impressão que tenho é que até isso eles querem tirar de mim! Pouco me importa se pra eles serei mais um indigente...
Como seria se todos tivessem espelhos em suas casas? Em algumas casas existem 3 ou até mais espelhos, que são conectados entre si por cabos de energia e se refletem simultaneamente; não é de hoje que isso acontece, e fico assustado, pois eles são todos iguais e não tem olhos nem ouvidos para entender o que são realmente, não enxergam o tamanho do equívoco que estão causando. Quando fecho os olhos vejo muito mais e consigo me ouvir verdadeiramente, ouço meu coração e enxergo minha alma, nada mais existe ao redor e sou como se fosse nada. Somos todos assim: não somos nada.
Transformo-me num mendigo sem posses materiais apenas pensamentos que não serão ouvidos nem reproduzidos por ninguém. Não tenho casa, nem roupas, nem espelhos. Tenho mais que isso: tenho um atestado de mente sã e corpo duvidosamente sadio, pois me vejo todos os dias procurando no lixo algo que me de vida.
Minha propriedade maior é meu corpo que se alimenta de restos dos que tem espelhos, casas e sede de ganância (que se alimenta de poesia, arte e magia), mas não são nada. Suas vidas são descartáveis, afinal seus espelhos, suas casas, e todo o fruto da ganância, um dia entrarão em ruína, partir-se-ão, tornar-se-ão obsoletos. Meu corpo é eterno, assim como meu atestado. Posso sempre que quiser fugir e me refazer sem nenhum problema, pois o mundo é minha casa, o lixo minha comida e os animais meus amigos, e esses nunca se perderão, sempre existirão.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A festa

Neste domingo me chamaram pra ir à uma festa.
Me pediram pra levar o som até lá
ia levar meu toca-discos mas pensei:
a galera lá é muito careta!

sábado, 11 de junho de 2011

a noite que não terminou

Cinzeiros, bitucas de cigarros, garrafas de vinho, vodka e whisky vazias: este era o cenário daquela sala quando saí. Haviam ainda três bêbados caídos no chão e nos sofás, entrei no banheiro para mijar e encontrei mais um, abraçando a privada. Desisti. Apertei a mão de Renato que era o único acordado, além de mim. Saí. A noite estava escura e fria, é nessas horas que nos lembramos da recomendação de nossa mãe que, sempre solícita, nos diz: leve um casaco, filho, pode esfriar! Poderia estar chovendo também, pensei; encontrar frio e chuva naquele final de noite seriam como ganhar na loteria!
            Segui caminhando pelas ruas rumo ao teatro, esperando encontrar alguém para trocar algumas idéias e, quem sabe, esquentar um pouco. Não encontrei ninguém e decidi ir para casa. Enquanto caminhava fui divagando, reconstituindo falas e fatos que ocorreram naquela noite. As luzes do poste me faziam companhia. Era uma noite sem lua e sem estrelas, o céu parecia refletir o asfalto, negro e sombrio. Garotas, amigos, pessoas novas e velhas na minha vida dançavam na minha mente, como um quadro animado, sem sentido, sem começo e sem fim.
Seguia assim caminhando quando me ocorreu uma pergunta: onde estaria eu? Caminhando para casa, sim, mas algo mais me chamou a atenção, tinha algo errado. Alguma coisa estava fora de seu lugar, algo importante. O que seria? Passei a me indagar insistentemente, enquanto olhava ao redor, na rua, nos postes, revendo a minha frente as pessoas que estavam comigo naquela noite. De repente um estalo: estava morto! É, é isso mesmo, eu havia morrido! Não passava de uma alma vagando por aí. As perguntas invadiam minha mente e tomavam o lugar das cenas daquela noite, como um batalhão de policiais dispersando uma multidão desordenada. Tudo ficou sério e silencioso; o frio deixara de estar só fora, na rua, invadiu meu pensamento, contagiando meu espírito. Naquele momento tive certeza: estava morto. Passei então a reconstituir os fatos daquela noite para saber quando, como e por que havia acontecido, não encontrava lógica em estar morto, não me lembrava do momento exato em que acontecera. Tentei mas não consegui; cada vez que me lembrava do começo da noite e ia organizando as idéias e os fatos, as imagens iam se tumultuando, se agredindo, numa sucessão sem sentido. Num ato de desespero me belisquei: não sentia dor, mas não poderia conceber o fato de estar morto sem ao menos saber como havia morrido. Não havia brigado; estava bem quando deixei a casa do Renato. Não havia porque me preocupar.
De fato! Quando estava me acalmando, ouvi novamente rumor de passos e vozes. Senti que o frio voltava a invadir meu espírito. A sucessão de imagens desordenadas. Olhei ao redor para ver se havia alguém, todas as vezes estava só, tinha certeza! Mas, teria realmente certeza? Ainda não sabia se havia morrido ou não, logo, o rumor poderia ser mais um produto da minha mente.
Foi quando tive uma visão. Uma garota que entrava em seu quarto após o banho, ainda enrolada na toalha. Ela liga o rádio, começa a rolar Tom Waits – Little Trip to Heaven ( On the Wings of Your Love); ainda com a toalha enrolada na cintura, ela enfia seus braços na blusinha, que me parecia seda ou algo do tipo.
Acordei por volta das 13:00; era domingo, o sol brilhava, céu azul, pássaros a cantar e, com certeza, haveriam flores desabrochando em algum lugar. Fiquei ainda algum tempo deitado. Quando me lembrei da noite passada me pareceu algo vago e muito distante. Haveria eu sonhado tudo aquilo?
Novamente, me veio a imagem daquela moça que entrava em seu quarto...  Entre lembranças vagas e perguntas sem respostas fiquei muito tempo deitado na cama, me perguntando: até que ponto a vida é sonho e realidade? Quando o véu se dissipa e quando estamos tocando o que é de fato real? Seria tudo um sonho, a vida e as pessoas?

terça-feira, 12 de abril de 2011

Minha amiga, minha cara

a minha mãe ja me falou pra tomar cuidado
com a rua antes de atravessar
mas você atravessa sem olhar
como posso me controlar?

ainda tenho uma lembrança
de criança
de quando era frio no inverno
e calor no verão

não sinto mais o frio
pois tenho você no meu coração

e quando a chuva molha o telhado
lembro das risadas que demos juntos
os postos, as caminhadas e as quebradas

minha amiga, minha cara
não te esqueço pois amigo assim
é coisa rara
e enquanto eu puder respirar
ao seu lado vou estar

Passagem

Não me prometa nada,
você está longe demais das capitais
como disseram os engenheiros.

E considero minha mente como a capital do meu ser
e as minhas ideias são as leis desse estado,
que não é nação
como diria um certo Russo.

E como nação me sinto cada vez mais nu
despido dos meus ideais,
como se estivesse vestindo um ultraje
bem a rigor.

terça-feira, 22 de março de 2011

verdade?

"Proponho à vocês um brinde aos nossos defeitos porque as qualidades filho da puta nenhum reconhece".
By Mutante.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Ainda há de passar...

“E vamos,
Sem rumo e sem destino,
Ao léu do Sonho
E à mercê da Vida.”

Mário Pederneiras

Ainda há de passar por debaixo dessa ponte algo que vale a pena,
algo que não seja água,
algo que dure para sempre.
Correr riscos é o dia-a-dia, nada demais
ter sorte é o que mais queremos e é o que mais temos
e não percebemos.

A beleza transcende da alma,
é feliz aquele que consegue enxergá-la,
mesmo sem tê-la por perto, pois, assim como o amor,
não exige nada em troca, apenas é.

Ser feliz é aceitar as coisas como elas são,
apreciar a beleza dos gestos breves que a vida nos proporciona.
É deixar-se estar, ao léu, a ver a vida passar,
pois ainda há de passar, por debaixo dessa ponte,
algo que vale a pena,
algo que não seja água,
algo que dure para sempre...

quarta-feira, 16 de março de 2011

escritor de garagem

Quando temos uma ideia fixa e ela não sai da nossa cabeça
quando nossa mente ja não aguenta mais trabalhar em benefício do outro
quando a vida se mostra sem saída
quando nosso amor não aparece
quando a chuva não para
quando o sol queima tanto que nos mata

me escondo
me retiro do palco
para a garagem
e escrevo.